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Receios de recessão nos EUA

Sixty Degrees questiona o seu fundamento

Desde meados do corrente ano que temos vindo a ouvir muitos analistas e jornalistas a alertar para a possibilidade de surgimento de uma recessão económica nos EUA a breve trecho. A sustentar essa visão têm sido várias vezes invocadas a “guerra” comercial entre EUA e China e a inversão da curva de taxas de juro americana, apontada como sendo um sinal histórico de recessão.

No entanto, uma análise dos mais recentes dados económicos e resultados de empresas parece reduzir a probabilidade de recessão na economia americana no curto prazo, apontando apenas para um ligeiro abrandamento no seu ritmo de crescimento.

Na passada semana, foi divulgada a estimativa preliminar para a evolução do PIB dos EUA no terceiro trimestre. O PIB real terá crescido 1,9% no terceiro trimestre, tendo ficado na parte superior do intervalo das estimativas de consensus, de 1,2% a 2,0%, e apenas ligeiramente aquém dos 2,0% registados no segundo trimestre.

No trimestre passado, o destaque mais positivo vai para o consumo das famílias que cresceu 2,9%, acima dos 2,6% esperados. O consumo aumentou em todas as categorias de bens e serviços. A classe de bens duradouros registou um crescimento de 7,6% e o investimento residencial cresceu 5,1% no terceiro trimestre, após ter recuado consecutivamente desde o quarto trimestre de 2017. Já os gastos públicos aumentaram 2,0%.

Pela negativa, destacar o investimento não residencial (equipamento, estruturas, propriedade intelectual) que registou uma queda (-3,0%) pelo segundo trimestre consecutivo.

De forma neutral, as exportações líquidas diminuíram ligeiramente, tendo contribuído negativamente em 0,08 pontos percentuais para a evolução do PIB.

O índice de preços (GDP price index) subiu 1,7%, ficando aquém dos 1,9% esperados e dos 2,4% registados no trimestre anterior. A ausência de pressões inflacionistas tem “ajudado” a Reserva Federal na prossecução de uma política monetária mais expansionista, tendo anunciado pela terceira vez este ano um corte na sua taxa de juro de referência, em 25 pontos base, para uma banda de 1,5%-1,75%.

Neste sentido, de acordo com as estimativas divulgadas, os EUA deverão ter registado uma evolução económica no terceiro trimestre acima do esperado e cujo valor confirma a continuação da expansão da sua economia. O consumo das famílias, que representa mais de dois terços do valor do PIB, continua a registar um desempenho sólido, assente também na forte dinâmica do mercado de trabalho. O comportamento do consumidor mais do que compensou a fraqueza ao nível do setor industrial, a qual poderá estar relacionada com a incerteza proveniente da disputa comercial com a China. 

A economia americana regista uma expansão continuada
Fonte: The Mises Institute

No que toca à divulgação de resultados do último trimestre, foram já apresentadas as contas de cerca de metade das empresas que constituem o índice S&P 500. Numa primeira análise, verifica-se que 80% das empresas que já divulgaram estão a superar as estimativas dos analistas e estão a fazê-lo numa ordem de grandeza superior à média histórica. De salientar que, ao longo do último ano, as expectativas de resultados, para o período em causa, tinham vindo a ser reduzidas de forma persistente, deixando os analistas demasiado pessimistas. Com as empresas a divulgarem números acima das estimativas de consensus, a sua cotação em bolsa tem reagido de forma positiva e acima da média histórica. Em média, esta reação pós-divulgação de resultados tem correspondido a uma variação de preço diária de 1,7% versus 0,5% de média histórica.

Tendo em conta a informação disponível, o crescimento médio de resultados das empresas do S&P 500 no terceiro trimestre terá sido de 0,6%. No entanto, é preciso ter em conta que o comparável do terceiro trimestre de 2018 é bastante difícil, já que nessa altura os resultados cresceram a uma taxa superior a 25,0% devido ao efeito do pacote de redução de impostos lançado pelo Presidente Trump. Importa também realçar a elevada divergência de comportamento entre os vários setores. Mais especificamente, os setores de energia e matérias-primas, com quedas de resultados de 40,7% e 11,5%, prejudicam fortemente a média do índice. Excluindo estes dois setores, que no seu conjunto correspondem a 9% da capitalização bolsista do S&P 500, o crescimento médio de resultados das empresas do índice teria sido de 3,6%, praticamente em linha com os 3,7% registados no segundo trimestre deste ano.

Em resumo, ao contrário do que se verificou em 2015 e 2016, os resultados do terceiro trimestre não recuaram. A evolução apenas evidencia um abrandamento face às fortes subidas registadas em 2018. O desempenho no terceiro trimestre parece confirmar um excessivo pessimismo por parte dos analistas e do mercado em geral.

Os resultados das empresas do S&P 500 continuam a apresentar crescimento apesar da difícil comparação com 2018

Fonte: Bloomberg, Haver, Deutsche Bank

Numa breve análise aos restantes indicadores económicos, com base em dados do mês de Outubro, destacam-se pela positiva:

  1. os US Leading Economic Indicators (LEI) continuam a registar crescimento numa base anual, +0,4%
  2. os indicadores de confiança permanecem em valores elevados, nomeadamente 95,5 para o Michigan Consumer Sentiment e 125,9 para o Conference Board Consumer Confidence
  3. os dados do mercado de trabalho continuam a apresentar solidez, espelhados na média móvel de 3 meses dos Non-farm Payrolls, correspondente a 176 mil postos de trabalho criados por mês e na taxa de desemprego, de 3,6%, abaixo da média móvel de 12 meses.

Pela negativa, o ISM Manufacturing apresentou um valor de 48,3 em outubro, permanecendo abaixo do limiar dos 50, e o comportamento da curva de taxas de juro, que só recentemente voltou a registar uma inclinação ligeiramente positiva. Em geral, e tendo em conta que também não se assiste a um disparo na inflação, o mais provável parece ser a continuidade da expansão económica americana.

Em conclusão, a Sixty Degrees considera que os recentes dados económicos e resultados de empresas reduzem a possibilidade de surgimento de uma recessão nos EUA e evidenciam um excessivo pessimismo por parte do consensus de mercado. Acima de tudo, o consumidor americano parece continuar a apresentar um crescimento saudável, sustentando assim a evolução económica positiva. Neste contexto, e apesar das nossas preocupações com o nível de liquidez no mercado interbancário norte americano, mantemos a visão favorável ao investimento em ações americanas e em dólares.

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