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Fraqueza nos bancos europeus

Índice de bancos europeus regista variação negativa nos últimos 10 anos

Desde o início do ano, as ações dos bancos europeus (Stoxx 600 Banks) registam uma underperformance de 15,8% face ao desempenho das ações europeias em geral (Stoxx 600). As cotações atuais dos bancos europeus estão próximas dos mínimos registados nos últimos 10 anos. Segundo dados da Bloomberg, a média dos bancos europeus transaciona a um múltiplo Price/Book Value de 0,74x, o que compara com 1,2x para os bancos americanos (S&P).

Neste contexto, importa analisar os principais problemas e desafios que se colocam à banca europeia.

O primeiro facto a destacar prende-se com a ausência de uma recuperação sustentada do crédito apesar da política de Quantitative Easing (QE) levada a cabo pelo BCE. Pela observação do gráfico abaixo pode constatar-se que no período pré-intervenção do BCE, 2013 e 2014, o crédito recuou em base anual todos os trimestres de forma consecutiva. Recorde-se que em junho de 2014, o BCE anunciou pela primeira vez que a taxa de depósitos passaria a ser negativa, em -0,10%. No período seguinte à intervenção, isto é, desde o início de 2015, o crédito registou taxas de crescimento positivas em base anual, mas sempre modestas, num intervalo de 1% a 4%.

Apesar da política de QE, o crédito na Europa não recuperou de forma sustentada
Fonte: BofA Merrill Lynch, Bloomberg, BCE

A ausência de uma recuperação sustentada no crédito bancário justifica-se pela falta de confiança no futuro. Para que os agentes tomem emprestado, para além do nível absoluto das taxas de juro, o que releva é a diferença entre estas e aquilo que é a expectativa de retorno ou lucro no futuro. A ausência de confiança no futuro inibiu o funcionamento do mecanismo de transmissão na economia.

Para além da ineficácia em termos de alavanca de crédito, a política de taxas de juro negativas implementada pelo BCE prejudicou fortemente a margem dos bancos e o retorno sobre os capitais próprios. O gráfico abaixo parece demonstrar esta situação, já que os bancos na Europa apresentam um rácio Resultado antes de Imparidades/Ativos Totais de apenas 0,6%, inferior à generalidade da banca mundial. Os bancos europeus, ao deterem uma margem relativa mais baixa, apresentam também uma maior vulnerabilidade ao ciclo, já que a sua capacidade de absorção de imparidades de crédito é inferior.

Os bancos europeus apresentam um rácio Resultado antes de Imparidades/Ativos Totais inferior às restantes regiões.

Fonte: BofA Merrill Lynch, SNL Financial, contas dos bancos

Relativamente à questão do crédito mal parado, importa referir que, segundo dados do BCE, em junho deste ano, o rácio NPL (Non Performing Loans/Total Loans) na Zona Euro igualava 3,8%, equivalente a 580 mil milhões de euros. Este valor situa-se ainda acima dos níveis pré-crise e compara com cerca de 1,0% nos EUA, 1,2% no Japão e 0,5% no Canadá. Para além de ser um valor superior ao registado nas restantes regiões existe grande disparidade no rácio NPL dos vários Estados membros. Segundo dados da Comissão Europeia, os países do Sul apresentam os seguintes valores para este rácio: 43,5% Grécia, 9,5% Itália, 11,3% Portugal e 4,0% Espanha. Para uma amostra dos Estados do Norte observam-se valores claramente inferiores: 1,6% Alemanha, 1,9% Holanda, 0,9% Luxemburgo, 2,8%, Áustria e 2,2% Bélgica.

Nos EUA, o problema foi resolvido através da transferência dos créditos problemáticos para os balanços da Fannie Mae e Freddie Mac, ou seja, através de um bailout apoiado pelo Estado americano. Pelo contrário, a Europa tem seguido uma política de bail-in para resolver os bancos em dificuldade. A resolução do crédito mal parado na Europa implicaria certamente transferências de dinheiro de contribuintes do Norte Europeu para o Sul, situação que tem encontrado séria oposição a Norte. A ausência de consolidação das dívidas dos diferentes Estados membros a preços de mercado numa dívida federal única tem dificultado uma solução de resgate abrangente.

Outro aspeto que merece referência é o facto dos bancos europeus ainda estarem muito expostos à dívida soberana dos países europeus, os quais, na sua maioria, ainda apresentam graves desequilíbrios orçamentais. Segundo dados da EBA (European Banking Authority), em junho de 2019, os bancos europeus detinham 3,9 biliões de euros de dívida soberana, equivalente a 13% dos seus ativos totais. O BCE mantém a intenção de prolongar a política de compras de dívida pública europeia, já que uma interrupção poderia desencadear uma subida das yields soberanas, que colocaria em cheque os orçamentos de muitos Estados da União.

Após a crise financeira global, os bancos europeus viram surgir um novo desafio aos seus modelos de negócio, na forma de uma forte pressão regulatória. Tendo por base um inquérito ao setor financeiro por parte da consultora Duff & Phelps, estima-se que os custos com compliance passem dos atuais 4% do produto bancário para 10% em 2022.

Ao mesmo tempo, neste contexto de baixas taxas de juro e forte regulação, os bancos tradicionais viram aumentar a concorrência ao nível da concessão de crédito com o fortalecimento de entidades não bancárias (shadow banking). Segundo dados do BCE, a quota de mercado destas entidades na concessão de novos créditos a empresas foi de 55% em 2002-2018 versus 30% em 2002-2008.

Esta conjuntura de taxas de juro tornou a procura por rentabilidade ainda mais desafiante, incentivando os bancos a direcionarem-se para ativos alternativos, com menor liquidez, como por exemplo: o setor de imobiliário e a dívida de mercados emergentes. Esta situação acentuará os problemas resultantes de um eventual cenário de stress nos mercados financeiros e/ou de uma desaceleração forte das principais economias mundiais.

Por outro lado, importa salientar que num ambiente de fraco crescimento económico a nível doméstico, os bancos europeus têm aumentado a concessão de crédito nos EUA, bem como o parqueamento de reservas junto da Federal Reserve (Fed).

Em conclusão, a Sixty Degrees considera que o programa de QE do BCE e os problemas que a falta de consolidação das dívidas dos Estados Membros colocam à própria estrutura do Euro continuarão a afetar a banca europeia nos tempos mais próximos. Desta forma, existe a necessidade de um ajustamento mais profundo do modelo da União para que os bancos amenizem os desafios ao seu modelo de negócio. Assim sendo, a Sixty Degrees prefere manter o investimento em ações fora do setor bancário europeu.

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