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Situação atual e perspetivas para a economia britânica

Na semana passada, mais precisamente no dia 31 de janeiro às 23h00 (hora de Londres e de Lisboa), o Reino Unido (RU) saiu oficialmente da União Europeia (UE), deixando de ser Estado-membro e passando a ser considerado país terceiro. No dia 1 de fevereiro, iniciou-se o período de transição estabelecido no âmbito do acordo de saída que vigorará até 31 de dezembro de 2020, podendo ser prolongado por mais dois anos. Durante o período de transição, as partes deverão negociar os termos das suas relações comerciais futuras. O RU permanecerá no mercado único da UE durante o período de transição. No dia 25 deste mês, o Conselho dos Assuntos Gerais em Bruxelas deverá aprovar a estratégia de negociação dos 27, definindo as suas diretrizes sobre as relações com o RU.

As negociações entre RU e UE deverão ser difíceis e prolongadas. Em termos formais, o RU tem até ao dia 1 de julho para pedir uma prorrogação do período de transição por mais 1 ou 2 anos, porém, por forma a evitar qualquer cenário de rutura, acredita-se que Bruxelas poderá aceder fazê-lo até ao limite em dezembro. No entanto, no seguimento da vitória nas eleições de 12 de dezembro, o primeiro-ministro britânico Boris Johnson descartou a possibilidade de vir a pedir qualquer adiamento do período de transição. Apesar disso, consideramos provável que o processo de negociações venha a ser faseado no tempo. Até ao final deste ano poderá ser alcançada uma primeira fase do acordo que defina os termos do comércio de bens, ficando adiado o entendimento ao nível dos serviços e outras questões mais complexas para uma fase posterior a dezembro de 2020. De recordar que a UE demorou sete anos a negociar um acordo comercial com o Canadá, o que pode ser uma antevisão para a demora na conclusão do processo com o RU.

Fonte: Eurostat, European Commission, gov.uk

Nesta fase será útil analisar as perspetivas para a economia britânica, que parecem mais positivas do que a generalidade das estimativas.

Em 2019, a economia do RU deverá ter registado um crescimento de 1,2% (FMI). O índice PMI compósito para o RU – que mede a evolução da atividade da indústria e dos serviços – atingiu 52,4 no mês de janeiro versus 49,3 em dezembro, acima dos 50,7 esperados. A subida registada no mês de janeiro corresponde à quinta maior variação positiva deste índice desde a sua compilação em 1998. O valor verificado sugere expansão económica moderada no primeiro trimestre, o que compara com um recuo estimado para o quarto trimestre de 2019. As eleições em dezembro passado, que atribuíram a vitória com maioria absoluta ao Partido Conservador, parecem ter marcado um ponto de viragem na economia britânica, com a redução da incerteza a surtir um impacto positivo nas decisões dos consumidores e das empresas já no início deste ano. A confiança dos empresários atingiu o seu máximo desde junho de 2015 e assistiu-se a uma notável recuperação nas projeções para o crescimento da produção nos próximos doze meses. Os dados avançados sugerem que o crescimento económico possa acelerar mais já na primeira metade do presente ano.

O índice PMI compósito para o Reino Unido sugere crescimento económico moderado.
Fonte: IHS Markit, CIPS, Office for National Statistics

O crescimento do PIB deverá também ser beneficiado pela expansão da política fiscal. Em setembro foi anunciado um aumento da despesa pública de bens e serviços equivalente a 0,6% do PIB para o exercício orçamental de 2020-2021. Para além disso, prevê-se um aumento do investimento em obras públicas, o qual deverá ser apresentado aquando da divulgação do Orçamento de Estado, no dia 11 de março. As previsões apontam para que esse estímulo adicional possa corresponder a 0,4-0,6% do PIB.

O investimento terá crescido cerca de 0,7% em 2019, mas poderá acelerar fortemente nos próximos dois anos, sobretudo em 2021 já numa fase muito avançada das negociações com a UE, reduzindo largamente a incerteza das empresas.

Indicadores Económicos Reino Unido (% yoy)
Fonte: Capital Economics, Refinitiv
% year average,*% of GDP

O resultado das eleições de dezembro também parece ter acelerado a recuperação do mercado residencial, que já vinha a ser suportado pelas baixas taxas de juro do crédito à habitação. Em novembro, os preços das casas subiram 1% em base trimestral, o que compara com 0,8% em outubro e corresponde à taxa de crescimento mais elevada desde fevereiro de 2018. O número de créditos à habitação aprovados pelos dos principais bancos do RU foi de 46,8 mil, em dezembro, o que compara com 44,1 mil, em novembro, e corresponde a um máximo desde agosto de 2015. Os dados revelados pelo RICS Residential Market Survey, indicador de expectativas para o mercado residencial, revelam que as eleições tiveram um impacto positivo no sentimento e nas perspetivas para a subida dos preços das casas nos próximos doze meses. O nível atual deste indicador sugere uma subida de 7% nos preços das casas em 2020, o que a confirmar-se será o maior aumento desde 2006. A valorização das casas terá um impacto potencialmente positivo no consumo das famílias.

Em 2019 o mercado de trabalho permaneceu robusto. Os últimos dados revelam que o emprego aumentou 0,6% nos três meses até novembro versus os três meses anteriores, o que corresponde à taxa de crescimento mais alta do último ano. A variação positiva de 208 mil trabalhadores, até novembro, inclui um acréscimo de 149 mil empregos a tempo inteiro e cria a expectativa de que o nível emprego continue a subir de forma sustentada nos próximos meses. De facto, o número de vagas de emprego caiu apenas 1,7%, em dezembro, o recuo mais fraco desde o passado mês de julho. Os dados atuais de vagas de emprego sugerem que o número de trabalhadores deverá crescer a uma taxa trimestral de 0,6%, na primeira metade de 2020. A confirmar-se o prolongamento do crescimento no emprego, é natural que a evolução positiva do consumo das famílias se torne mais sustentável.

Em 2019, o mercado de trabalho apresentou robustez.
Fonte: Pantheon Macroeconomics

Na passada quinta feira, o Banco de Inglaterra manteve a taxa de juro diretora em 0,75% e o programa de estímulos inalterado. A manutenção da taxa de juro foi aprovada pelo Comité de Política Monetária por uma maioria de sete votos contra dois. Certamente que a subida do índice PMI compósito em janeiro, a par da divulgação de vários indicadores positivamente afetados pelas eleições tiveram influência na decisão de política monetária. De salientar que o valor atual do PMI (52,4) situa-se a meio do intervalo entre 51,0 – nível ao qual o Comité de Política Monetária tem decidido baixar taxas de juro- e 54,0 – nível que levou à subida das mesmas, em 2017/18.

Em suma, consideramos que apesar de continuar a existir alguma incerteza relativa às negociações do Brexit, o resultado das eleições de dezembro foi um marco importante para uma maior estabilidade futura. O seu impacto positivo é visível nos indicadores económicos mais avançados. A nossa opinião é de que a economia britânica tem condições para registar um desempenho positivo podendo surpreender as expectativas. Assim sendo, consideramos que o RU poderá ser um outperformer na região europeia.

Em suma, a análise mais detalhada das tendências dos vários indicadores económicos da Zona Euro reforça a nossa convicção de fraqueza económica para a região e a necessidade de monitorizar de muito perto a futura atuação do BCE. Face ao exposto, nesta fase, mantemos a nossa preferência pelo investimento em ações americanas e dólar em detrimento da Zona Euro.

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