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Weekly Note

Dinâmicas do Mercado de Petróleo

Análise às forças inerentes à formação do preço do petróleo

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A evolução do preço do petróleo representa um indicador de aferição da “saúde” da economia mundial. A recente queda abrupta do consumo e da cotação desta matéria-prima sugere uma forte contração económica global nos próximos meses.

Na Weekly Note desta semana analisam-se as dinâmicas inerentes à formação do preço do petróleo e procura-se responder à questão: “Será a recente queda do preço do petróleo função exclusivamente da quebra de procura, resultante da paragem económica associada à quarentena imposta à maioria da população mundial, ou existirão outros fatores a ter em consideração?

O petróleo como “referência” de aferição da atividade económica

Desde a descoberta do fogo que o desenvolvimento da atividade humana implica consumo de energia. As fontes de energia utilizadas foram-se alterando em função do desenvolvimento tecnológico passar a permitir uma maior rentabilidade.

Com a invenção do motor de combustão interna e o salto tecnológico provocado pelas duas Guerras Mundiais do início do século XX, o petróleo passou a ser a fonte de energia mais utilizada a nível mundial, não só pelo seu poder energético, como também pelo aproveitamento dos seus derivados noutros sectores como a produção de combustíveis para aquecimento, lubrificantes, produtos químicos variados, asfaltos ou plásticos.

Tendo em conta a diversidade da sua utilização e a presença em quase todos os setores produtivos, é fácil perceber que uma quebra acentuada da atividade económica provoca uma redução drástica na procura por este recurso.

Na década de 1970, o petróleo representou 45% do consumo global de energia primária. Em 2018, esta matéria-prima continua a liderar o consumo de energia (35%) seguida do carvão (28%) e do gás natual (25%)
Fonte: Vaclav Smill (2017) and BP Statistical Review of World Energy

Análise à produção

Segundo a mais recente publicação anual da BP – “BP Statistical Review of World Energy – 2019 – 68th edition” – a produção de petróleo em 2018 cifrou-se em 94,7 milhões de barris por dia. Extrapolando a média de crescimento de produção da última década (1,2% anual), a produção média mundial, em 2020 e em condições correntes, situar-se-á em cerca de 97 milhões de barris diários.

Interessa destacar qual a percentagem da produção mundial controlada pelos membros da OPEC e da OPEC +, devido ao efeito de cartel desta organização no mercado de crude. Calculou-se esse “market share” recorrendo à publicação já referida e mantendo o “market share” de cada país constante de 2018 (últimos dados disponíveis) para 2020.

Membros atuais da OPEC – Abril 2020 – Produção de Petróleo 39,2% do total mundial

  • Argélia, Angola, Congo, Guiné Equatorial, Gabão, Irão, Iraque, Kuwait, Líbia, Nigéria, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Venezuela

Membros atuais da OPEC+ – Abril 2020 – Produção de Petróleo 58,3% do total mundial

  • OPEC + Rússia, Azerbeijão, Bahrain, Brunei, Kazaquistão, Malásia, México, Omã, Sudão e Sudão do Sul 

Nestes dois grupos destacam-se a Arábia Saudita e a Rússia, com quotas de mercado de 13% e 12,1% respetivamente. O grande equilíbrio de produção entre os dois países e a sua relevância no total de produção do cartel, tornam-nos nos dois pivots fundamentais de qualquer acordo da organização.

Por forma a tentar travar a queda de preços, no dia 12 de abril, a OPEC+ anunciou medidas de corte de produção. Nos meses de maio a junho a produção diária deverá ser reduzida em cerca de 9,7 milhões de barris diários, representando uma redução de 10% na produção total mundial. No período entre julho e dezembro de 2020, o corte deverá ser reduzido para 8 milhões de barris diários.

Importa salientar que os cortes de produção anunciados não deverão ser suficientes para fazer face ao recuo da procura, uma vez que a taxa de cumprimento das decisões passadas da OPEC pelos seus membros é baixa, o que nos leva a suspeitar que os cortes de produção não venham a ser executados no seu todo. Segundo cálculos da Raymond James, os cortes de produção estimados para o período de maio a junho igualam 13,0 milhões de barris diários (9,7 milhões de barris diários por parte da OPEC+ e 3,3 milhões de barris diários por parte dos restantes países, incluindo EUA, Canadá e Brasil), no entanto, esta mesma entidade, espera que apenas 7,5 milhões de barris sejam efetivamente reduzidos.

Análise ao consumo

Utilizando a mesma publicação anual da BP – “BP Statistical Review of World Energy – 2019 – 68th edition” – o consumo de petróleo em 2018 cifrou-se em 99,8 milhões de barris por dia. Extrapolando a média de crescimento do consumo da última década (1,2% anual), o consumo médio mundial, em 2020 e em condições correntes, situar-se-á em cerca de 102,2 milhões de barris diários.

Note-se que, nos últimos 10 anos, o consumo mundial de petróleo declarado cifrou-se sempre acima da produção declarada, pelo que estimamos que a verdadeira produção seja acima da calculada anteriormente, nomeadamente por países que enfrentam sanções internacionais, como o Irão e a Venezuela, que conseguem ultrapassar parte dos bloqueios, ou por países produtores da OPEC que infringem o cumprimento das suas quotas e vendem esse excedente de uma forma não declarada.

Fonte: BP Statistical Review of World Energy – 2019 – 68th edition

Nesta fase importa tentar quantificar qual a redução do consumo que poderá advir da atual crise Covid-19 e das medidas de confinamento. Os dados já disponíveis na China apontam para uma queda significativa do consumo de energia. Segundo as estimativas da Raymond James, no segundo trimestre, o consumo global de petróleo poderá diminuir cerca de 20,0%, ou seja, 20 milhões de barris diários face ao período homólogo do ano anterior. No ano 2020 como um todo, o recuo na procura de petróleo deverá igualar 9,9%, isto é, cerca de 9,9 milhões de barris diários face ao período homólogo do ano anterior.

Análise à capacidade de armazenamento

No que respeita à capacidade de armazenamento disponível a nível mundial, a Reuters divulgou um artigo no passado dia 24 de março, que aponta para estimativas entre 0,9 e 1,8 mil milhões de barris. A Kepler estima 1,8 mil milhões de barris, enquanto a Bernstein e a UBS estimam 1,6 e 0,9 mil milhões de barris respetivamente.

Tendo em conta a redução estimada no consumo e a capacidade de armazenagem existente, os cortes de produção deveriam igualar cerca de 17 milhões de barris diários para que o equilíbrio de mercado fosse mantido.

Segundo a Raymond James, seriam necessários cortes na produção de 17 milhões de barris diários no período entre maio e junho.

Situação atual

Da observação da dinâmica das variáveis analisadas, assistir-se-á a uma necessidade de acumulação de stocks, que coloca em risco o equilíbrio de mercado e, como tal, representa uma ameaça em termos de esgotamento da capacidade de armazenamento disponível. Uma diminuição do consumo na ordem dos 20 milhões de barris diários, tudo o resto constante, significa o esgotamento da capacidade de armazenagem de 1,8 mil milhões de barris no espaço de 90 dias, ou seja, de um trimestre.

Este desequilíbrio do mercado já levou a um acontecimento inusitado e nunca anteriormente presenciado no mercado de petróleo, com o petróleo WTI (West Texas Intermediate), a maior referência a nível mundial nesta matéria-prima, a transacionar em valores negativos pela primeira vez. Ninguém quer receber a entrega física, já que a capacidade de armazenamento e escoamento no local de entrega físico está a chegar ao limite. O mesmo fenómeno já tinha sido observado em março nos contratos de petróleo Wyoming Asphalt Sour, utilizado principalmente para produzir asfalto e no qual as opções de armazenamento são escassas.

A Sixty Degrees antevê que, mesmo numa fase de retoma económica, a recuperação do preço do petróleo possa ser lenta. Um regresso para níveis superiores a 30 dólares por barril poderá ficar comprometido devido aos seguintes fatores de resistência:

  • Nível de stocks acumulado;
  • Reduzida capacidade dos membros da OPEC+ para efetivarem cortes de produção dada a sua dependência fiscal das receitas de petróleo e o histórico de fraco cumprimento de decisões passadas;
  • Potencial subsidiação por parte de alguns Estados a produtores de petróleo para que possam permanecer no mercado, diminuindo a velocidade e a dimensão dos cortes de produção.

Numa fase posterior, é natural que o desinvestimento no setor se venha a traduzir em falta de capacidade produtiva e como tal abra espaço para uma maior recuperação do preço. Nessa altura, o ajustamento da capacidade produtiva, ou seja, dos níveis de oferta poderá ser mais demorado e como tal provocar uma situação de escassez de petróleo num contexto de aceleração económica futura.

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