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Weekly Note

Impacto global da crise covid-19 nos salários

ILO Wage Report

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O corrente ano ficará marcado pelo colapso da economia global em resultado da pandemia Covid-19 e da implementação, com elevados prejuízos económicos, de medidas de isolamento social e confinamento na tentativa de controlar a propagação do vírus e minorar a pressão sobre os sistemas hospitalares. Em outubro, o FMI divulgou uma estimativa de contração da economia global na ordem dos 4,4%, em 2020, após um crescimento de 2,8%, em 2019. O FMI espera que a recessão seja mais acentuada nas economias avançadas, que deverão contrair cerca de 5,8% versus 3,3% nas economias emergentes.

Crescimento anual médio (2006-20)

Nas economias avançadas, a inflação que já tinha caído, em 2019, voltou a registar nova descida, em 2020. Neste caso, os trabalhadores que, por hipótese, tenham conseguido manter o seu salário nominal viram o seu salário real diminuir pouco por causa deste efeito. No entanto, nas economias emergentes, a inflação manteve-se praticamente inalterada, nos últimos anos, implicando que a manutenção do salário nominal seja correspondente a uma redução do salário real.

A inflação diminuiu nas economias avançadas, em 2020

Por forma a mitigar os efeitos da pandemia na economia e no mercado laboral, muitos governos implementaram medidas fiscais numa escala sem precedente. Segundo estimativas de Segal e Gerstel (2020), os países do G20, no seu conjunto, terão despendido um montante superior a 7.600 mil milhões de dólares, aproximadamente 11,2% do seu PIB, em medidas fiscais. As ações tomadas assumiram variadas formas incluindo empréstimos às empresas, adiamento de pagamento de impostos e contribuições para a Segurança Social bem como reforço da proteção social, nomeadamente do subsídio de desemprego e das medidas de layoff. Estas últimas, em específico, tiveram uma forte adesão nos países em que foram implementadas. A título de exemplo, no início de julho, em França, o programa de layoff abrangia mais de 14 milhões de trabalhadores, cerca de 56% do emprego total. No final de abril, na Suíça, as medidas de layoff envolviam 37% dos trabalhadores assalariados. Adicionalmente, os Bancos Centrais também expandiram fortemente a sua política monetária na tentativa de estimular a economia.

O surto pandémico rapidamente gerou uma crise laboral a nível global, infligindo numerosas perdas de emprego e de horas trabalhadas. Segundo estimativas da ILO (International Labour Organization), o encerramento de empresas e/ou de locais de trabalho provocou uma redução, a nível global, de 12,1% no número de horas trabalhadas – equivalente a 345 milhões de empregos a tempo inteiro – no terceiro trimestre de 2020 versus o quarto trimestre de 2019. No segundo trimestre de 2020, registaram-se perdas nas horas trabalhadas de 15,2% na Ásia Pacífico, 15,6% em África, 16,9% nos EUA, 17,5% na Europa e 28% na América do Sul. No primeiro trimestre de 2020, foi registada uma queda de 10,7% no rendimento do trabalho a nível global – equivalente a 3,5 biliões de dólares – face ao período homólogo do ano passado. Segundo o inquérito global da International Trade Union Confederation, as empresas inquiridas, em 87 dos 100 países abrangidos, afirmaram estar a proceder a despedimentos. Nos EUA, segundo estimativas pré-pandemia do Bureau of Labor Statistics, os 6 setores mais diretamente afetados pelas medidas de confinamento empregavam 20% do total de emprego. Cerca de 54% do emprego nesses setores localizava-se nos 20% mais baixos da distribuição salarial americana, abrangendo por isso trabalhadores com salários abaixo da média nacional.

No presente mês, a ILO divulgou um relatório intitulado Global Wage Report – Wages and minimum wages in the time of COVID-19, com o objetivo de informar sobre os reais efeitos da crise pandémica sobre os salários, a nível global.

No gráfico abaixo, pode observar-se que, nos 4 anos anteriores à pandemia, o crescimento do salário real global situou-se entre 1,6% e 2,2%. Retirando a China da amostra, o crescimento foi mais ténue, mas ainda assim variou entre 0,9% e 1,6%.

Crescimento do salário médio real global (2006-19)

Ao nível das economias avançadas do G20, entre 2006-19, registou-se um crescimento do salário real entre 0,4% a 0,9%. Já nas economias emergentes, esse mesmo crescimento foi superior e na ordem dos 3,5% a 4,5%. Nos últimos anos antes da crise, as regiões de Ásia Pacífico e Europa de Leste foram as que registaram maior crescimento do salário real, por contraste com América do Norte e Europa Ocidental onde esse ritmo foi mais lento. Os trabalhadores na China, India, República da Coreia, Tailândia e no Vietname foram os que registaram maior crescimento no seu salário real, por contraponto aos da América Norte (EUA e Canadá) e Europa Ocidental que beneficiaram de um acréscimo de apenas 0% a 1%. Naturalmente que a evolução dos salários está intimamente relacionada com os indicadores económicos de cada região, sendo certo que as economias emergentes asiáticas registaram crescimento económico superior nos anos anteriores à pandemia.

Crescimento do salário médio real no G20 (2006-19)

O próximo gráfico analisa a evolução do salário real, no período 2008-2019, para as economias avançadas e emergentes do G20. Nas economias avançadas, destacam-se pela positiva os crescimentos verificados na República da Coreia (22%) e na Alemanha (15%). No caso alemão, o crescimento salarial foi próximo de zero, em 2008 e 2009, moderado, entre 2010-13, e acelerou posteriormente por forma a perfazer um aumento de 15%, no período 2008-2019 como um todo. Por contraste, os salários reais diminuíram, em 2008-2019, em Itália, no Japão e no Reino Unido.

No caso das economias emergentes do G20, destaca-se o crescimento verificado na China, onde os salários reais mais do que duplicaram no período em questão. De qualquer forma, todos os países deste grupo registaram crescimento do salário real à exceção do México.

Apesar disso, o nível de salário médio nas economias emergentes do G20 permanece muito inferior ao das economias avançadas. Numa conversão em paridade de poder de compra, o salário médio nas economias avançadas atinge 3,780 dólares por mês versus 1,850 dólares por mês, no caso das economias emergentes.

Evolução do salário médio real para os países G20 (2008-19)

Relativamente à medição do impacto da atual crise sobre salários, é preciso reconhecer a enorme dificuldade na recolha de dados estatísticos no contexto atual, o que significa que provavelmente apenas nos próximos meses/anos será possível mensurar o verdadeiro impacto da pandemia no mercado laboral.

De qualquer forma, parece existir evidência, a nível global, de que os trabalhadores estão a ver-se obrigados a aceitar, pelo menos temporariamente, um menor número de horas e/ou cortes salariais. Segundo inquérito de Adams-Prassl et al. (2020), numa amostra de trabalhadores que ainda tinham emprego pago, no início de abril, parte deles (35% nos EUA, 30% no Reino Unido e 20% na Alemanha) revelaram ter recebido um valor inferior em março versus janeiro e fevereiro.

Os dados mais recentes dos respetivos “institutos nacionais de estatística” revelam que cerca de dois terços dos países, para os quais existem valores disponíveis, registaram decréscimo de salários ou crescimento médio salarial mais lento. Nas restantes economias verificou-se uma subida do salário médio, de alguma forma surpreendente,  devido ao “efeito composição” decorrente da perda de empregos com ordenados inferiores. Em altura de crise, os salários médios podem ser fortemente enviesados pelo “efeito composição” quando a maioria das perdas de emprego ocorre nos escalões inferiores, levando a que a média salarial dos restantes trabalhadores aumente de forma automática.

No gráfico abaixo, podem observar-se os exemplos de “efeito composição” no Brasil, no Canadá, em França, em Itália, na Noruega e nos EUA, onde os salários médios têm vindo a registar subidas em simultâneo com uma redução do emprego sem precedentes. Nos EUA, a maioria dos Estados impôs medidas de confinamento, no final de março 2020, o que provocou uma subida histórica do desemprego, durante o mês de abril, tendo a taxa de desemprego atingido 14,7% e o índice de salário médio real aumentado para 106,6. Em abril 2020 e julho 2020, o salário médio real estava 7% e 4%, respetivamente, acima da média de 2019, precisamente devido ao maior aumento do desemprego nos trabalhadores menos qualificados. Em específico, no mês de abril 2020, o desemprego aumentou em 14,4pp nos trabalhadores com habilitações inferiores ao ensino secundário versus 5,9pp nos trabalhadores com ensino superior.

Apesar da taxa de desemprego, em França e em Itália, ter caído durante a crise Covid-19 devido à dificuldade em procurar emprego de forma ativa, um elevado número de trabalhadores perdeu o emprego e consequentemente as médias salariais aumentaram devido ao “efeito composição”.

Aumento do salário médio real devido ao “efeito composição”

Por outro lado, o gráfico abaixo ilustra a pressão sobre os salários nalguns países europeus onde os aumentos do desemprego foram menos acentuados e/ou sustentados por fortes medidas de layoff. No Reino Unido, pode observar-se uma queda no salário médio, que teve início em fevereiro 2020 e acelerou em março e abril, enquanto a taxa de desemprego se manteve estável. Tal situação poderá ser explicada pelo facto dos trabalhadores beneficiários do programa de layoff não terem sido considerados desempregados, apesar das suas horas trabalhadas se terem reduzido para zero. Neste caso, o índice de salário médio real diminuiu para 97,9, em abril 2020, equivalente a uma redução de 2,1%, face a 2019. Situações semelhantes podem ser observadas noutros países europeus como Finlândia, Holanda, Espanha e Suécia. Na Alemanha, pode observar-se um crescimento salarial mais lento, no primeiro trimestre de 2020, em comparação com 2019.

Pressão salarial nalguns países europeus

Por comparação, podemos observar no próximo gráfico, a pressão sobre os salários nalguns países da Ásia-Pacífico e da América do Sul.

Pressão salarial nalguns países da Ásia-Pacifico e da América do Sul

Em média, nas economias avançadas do G20, os salários médios reais aumentaram 2,6%, no final do segundo trimestre de 2020, devido a alterações na composição do emprego de vários países, especialmente nos EUA.

Por fim, analisando o impacto da crise Covid-19 numa amostra de 10 países europeus, pode concluir-se que as medidas de layoff permitiram reduzir, de 6,4% para 3,1%, a perda de montante salarial decorrente da redução das horas trabalhadas.

Na Europa, as medidas de layoff permitiram reduzir a perda salarial decorrente da crise

A crise Covid-19 tem infligido fortes danos no mercado laboral que se traduziram em perdas de emprego, redução do número de horas trabalhadas e pressão salarial nalguns países. Na fase de recuperação em curso, será importante monitorizar o ritmo ao qual estes desequilíbrios poderão ser revertidos, em especial pela sua relevância para uma retoma sustentada do consumo.

É de realçar que o consumo é um dos principais motores no PIB das economias mais desenvolvidas. Para tentar perceber a evolução recente dessa variável tem de se ter em conta vários fatores, entre os quais a quebra do rendimento disponível. Como referido, os programas de lay-off implementados foram importantes para tentar manter as estruturas produtivas intactas e capitalizar uma retoma, minimizando a perda de rendimento durante os meses em que os programas estiverem em vigor.

Já nos países com rendimento per capita mais baixo e com dados estatísticos considerados menos fidedignos, destaca-se a importância do setor informal que, por ter sofrido um abrandamento muito significativo, infligiu uma perda efetiva de rendimentos numa parte considerável da população que depende parcial ou totalmente de atividades não registadas (nas áreas do turismo, restauração, prestação de horas-extra, venda ambulante, …), cujos reflexos negativos se continuarão a sentir no consumo até 12 meses após a normalização da atividade.

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