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Weekly Note

América Latina: Inflação e Política Monetária

Bancos Centrais sobem taxas de juro

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O movimento de aperto da política monetária iniciou-se em larga escala nas economias emergentes, com destaque para a América Latina. A pressão inflacionista, acima dos objetivos oficiais de controle de preços, levou os bancos centrais destes países a encetar subidas nas suas taxas de juro de referência. Numa altura em que a própria Reserva Federal considera algum grau de aperto monetário, os mercados emergentes parecem tentar adiantar-se por forma a estabilizar de antemão os seus mercados financeiros locais.

Relativamente ao Brasil, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu 1,2% em setembro face ao mês anterior. Tratou-se da maior variação no mês de setembro desde 1994. Numa base anual, a taxa de inflação atingiu 10,3% em setembro versus 9,7% em agosto. Das nove componentes consideradas, oito registaram subidas em setembro. O destaque foi para os itens de Habitação, Transportes e Alimentação, que contribuíram com 0,11p, 0,31pp e 0,29pp para o incremento mensal como um todo, respetivamente. Os custos com transportes aumentaram 1,8% face ao mês anterior, refletindo sobretudo o disparo de 2,3% na gasolina. Os preços dos alimentos subiram 1,0% face ao mês anterior. Já a componente do grupo habitação registou uma subida de 2,6% face ao mês anterior, devido principalmente à subida de 6,5% nas tarifas de eletricidade. De facto, a inflação continua a acelerar devido à subida dos preços das commodities, à crise energética associada a um forte período de seca, que delapidou as reservas das hidroelétricas, e à melhoria da procura, à medida que a economia reabre.

No Brasil, a inflação superou a fasquia dos 10% pela primeira vez desde 2016

Fonte: Bloomberg

Perante a situação, durante o mês de setembro, o COPOM (Comité de Política Monetária do Banco Central do Brasil) decidiu aumentar a taxa Selic em 100bp, para 6,25%. O Comité afirmou que continua a antecipar uma recuperação económica sólida para a segunda metade do ano, mas realçou as incertezas quanto ao equilíbrio das contas públicas e à responsabilidade fiscal, fatores que têm pressionado o câmbio do Real. O Comité mantém-se em alerta dada a persistência da inflação ao nível dos bens industriais, em resultado dos estrangulamentos na cadeia de oferta, dos elevados preços das matérias-primas e da recuperação da procura. Nas suas atas são ainda referidos como fatores de pressão a depreciação cambial, o forte período de seca e a subida dos preços das commodities.

O Banco Central reviu em alta as suas projeções para a inflação em 2021 e 2022. Para 2021, estima-se uma taxa de inflação de 8,5%, um aumento de 2pp face à estimativa anterior. Já para 2022, o banco prevê que a taxa de inflação atinja os 3,7% versus 3,5% anteriormente.

O COPOM afirmou que as medidas de inflação Core atuais permanecem acima do intervalo compatível com o target de inflação. O Conselho considera que o atual ritmo de subidas de taxas de juro será adequado por forma a trazer a inflação para os targets do Banco Central, em 2022. Desta forma, o COPOM sinalizou nova subida de taxas, na ordem dos 100bp (para 7,25%), na sua próxima reunião do final do presente mês.

Em termos de outlook admite-se que a inflação possa terminar o ano próxima de 9,0%, embora disrupções adicionais nas cadeias de produção e um disparo nos preços dos serviços devido à reabertura da economia sejam fatores de risco. Para 2022 efeitos de base mais favoráveis, a par de uma melhoria do clima e uma normalização ao nível das cadeias de oferta deverão permitir uma diminuição gradual da inflação para cerca de 4,5%. Neste contexto, o COPOM deverá anunciar uma nova subida de 100bp na Selic, na última reunião deste ano, trazendo-a para 8,25%. Tendo em conta que a inflação deverá permanecer elevada nos primeiros meses de 2022 e que o target do Banco Central para esse ano como um todo é de 3,5%, poderemos assumir subidas adicionais na taxa Selic, possivelmente para 9,0% no 1T22. Daí em diante o Banco Central deverá permanecer estável até ao final do ano, assumindo que as questões climatéricas se atenuam, que a pandemia estabiliza e que as contas públicas permanecem sob controle.

Relativamente ao México, a taxa de inflação subiu 0,6% em setembro, face ao mês anterior. Numa base anual, a taxa de inflação manteve-se nos 6,0%, enquanto a taxa de inflação core aumentou para 4,9% versus 4,8% em agosto. Destaca-se a subida mensal de 1,4% nos preços dos alimentos não processados e o aumento de 0,9% nas tarifas energéticas, devido sobretudo à subida dos preços do gás LP.

No México, a taxa de inflação situa-se em máximos de ciclo sobretudo devido à subida dos preços dos alimentos e do gás

Fonte: Bloomberg

No final do mês de setembro, o Banxico aumentou a taxa de juro de referência em 25bp, para 4,75%. O Banco Central afirmou que as pressões inflacionistas a nível global e os bloqueios ao nível das cadeias de produção estão a impulsionar a tanto a inflação corrente como as suas expectativas futuras. O Conselho salientou como principais riscos para o outlook de inflação, a continuação da subida dos preços dos inputs, a depreciação cambial e a subida dos preços dos alimentos. Nesta fase, o Banco Central espera que a inflação volte a convergir para o target de 3% apenas no terceiro trimestre de 2023.

A permanência da inflação em níveis elevados nos próximos meses, a par do início da normalização de política monetária, por parte da Reserva Federal norte-americana, leva-nos a supor que o Banxico proceda a novas subidas de taxas de juro já nas suas próximas reuniões, possivelmente até 5,25%, no final deste ano, e até 6,00% no segundo trimestre de 2022. Admite-se que a inflação possa atingir cerca de 6,5% no término de 2021 , moderando posteriormente para cerca de 3,5% no final do segundo semestre de 2022.

No que respeita ao Peru, a taxa de inflação subiu 0,4% em setembro face ao mês anterior. Numa base anual, a taxa de inflação aumentou para 5,2% versus 5,0% em agosto, situando-se agora no valor mais elevado desde início de 2009. O destaque vai para a subida nos preços dos alimentos, bens domésticos e custos de transporte. Com efeito, o aumento dos preços das commodities, a depreciação cambial e a reabertura da economia continuam a exercer pressão em alta sob a inflação.

No Peru, a taxa de inflação atingiu o valor mais elevado desde o início de 2009

Fonte: Bloomberg

No início deste mês, o Banco Central do Peru (BCP) subiu pela terceira vez consecutiva a sua taxa de juro de referência em 50bp para 1,50%. O Conselho do BCP justificou a sua decisão com base no acelerar da taxa de inflação, no aumento do risco político do país e na depreciação cambial. O Banco Central afirmou que irá permanecer atento à evolução das expectativas de inflação e da atividade económica por forma a considerar, se necessário, alterações adicionais à taxa de juro referência, deixando assim a porta aberta para mais subidas. O Conselho espera que a inflação regresse ao intervalo target de 1%-3% nos próximos 12 meses, com a reversão de alguns fatores de carater mais temporário.

Nesta fase, admite-se que a inflação possa continuar a subir nos próximos 3 a 6 meses, podendo atingir cerca de 5,8% no final do ano. A persistência das pressões inflacionistas deverá levar o Banco Central a efetuar subidas adicionais, na taxa de juro de referência, de 25bp em novembro e em dezembro.

A persistência de pressões inflacionistas nos próximos meses deverá levar o Banco Central do Peru a aumentar a taxa de juro de referência, em 50bp, até dezembro

Fonte: Bloomberg

No que se refere ao Chile, a taxa de inflação subiu 1,2% em setembro face ao mês anterior. Numa base anual, a taxa de inflação aumentou para 5,3% versus 4,8% em agosto, situando-se agora no valor mais elevado desde final de 2009. Destacam-se as componentes de transportes, alimentos e grupo habitação que contribuíram com 0,36pp, 0,42pp e 0,10pp respetivamente para o incremento mensal registado. Os preços dos transportes subiram 2,7% face ao mês anterior. Os preços dos alimentos registaram uma subida de 2,1% face a agosto, o maior incremento mensal desde 2014. Já os preços do grupo habitação, incluindo gastos com utilities, registaram uma subida mensal de 0,7% sobretudo devido ao aumento dos preços do gás LP. Nas restantes categorias foi registada uma aceleração generalizada nas subidas dos seus preços.

No Chile, a taxa de inflação aumentou para 5,3% em setembro, o valor mais elevado desde finais de 2009

Fonte: Bloomberg

No caso do Chile, importa referir o impacto da depreciação cambial que tem sido acentuada devido ao aumento do risco político e aos receios relativamente ao potencial saque adicional das poupanças em fundos de pensões privados, que poderão comprometer as contas públicas a prazo. Nesta fase, espera-se que a inflação continue a avançar até 6% no final do ano, devido à retoma da procura doméstica, à subida dos preços das commodities e à depreciação do câmbio. Algures em meados do primeiro trimestre do próximo ano, poder-se-á assistir a uma normalização da inflação com a esperada acalmia na procura dos bens que tiveram em foco na pandemia, nos efeitos do aperto da política monetária e na melhoria ao nível dos bloqueios das cadeias de produção.

O Banco Central do Chile votou por unanimidade voltar a subir a sua taxa diretora em 125bp, que se situa agora em 2,75%. Com esta subida de taxas acima do esperado, os banqueiros centrais procuram manter a inflação e suas expetativas sob controle, à medida que a recuperação económica se desenrola, alicerçada no consumo privado, e que o programa de vacinação contra a covid-19 atinge os seus objetivos. Contudo, na margem, a economia já denota alguma desaceleração nos seus incrementos em virtude de novas restrições sanitárias e das complicações latentes ao nível das cadeias de produção e da subida dos preços da energia.
Com este cenário por base, o BCC admite que deverá reforçar a sua tendência contracionista para que atinja os 3,5% – a sua taxa neutral – até final do corrente ano e alcance os 4,5% no final do 1T21. Contudo, esta celeridade estará dependente da resolução dos problemas com os levantamentos dos fundos de pensões e com da volatilidade esperada em torno das eleições presidenciais.

Relativamente à Colômbia, a taxa de inflação subiu 0,4% em setembro face ao mês anterior. Numa base anual, a taxa de inflação aumentou para 4,5% versus 4,4% em agosto, ficando acima do objetivo de 1%-4% do Banco Central, pelo segundo mês consecutivo. O destaque vai novamente para as subidas nas componentes de alimentos, grupo habitação e transporte. Os preços dos alimentos registaram uma subida mensal de 0,8%, enquanto os preços dos transportes subiram 0,6%. Já o grupo habitação registou uma subida de 0,4% sobretudo devido a maiores preços da água. Com efeito, as pressões inflacionistas continuam a acelerar devido à depreciação acentuada do câmbio, durante o Verão, e à subida dos preços das commodities.

Na Colômbia, a taxa de inflação atingiu 4,5% em setembro

Fonte: Bloomberg

No final do mês de setembro, o Banco Central da Colômbia subiu a taxa de juro de referência em 25bp para 2,00%. O aumento da inflação e das expectativas de inflação, a par da depreciação cambial, do aumento do risco político no primeiro semestre e da solidez da atividade económica nos últimos meses, fizeram com que o Banco Central se visse forçado a atuar. O Banco Central prevê que a inflação se situe em 4,5% no final do ano, diminuindo para 3,5% no final de 2022.

Contudo, as pressões inflacionistas continuam a fazer-se sentir, sendo relevante referir que a inflação no produtor aumentou para 19,7% em setembro versus 2,6% em janeiro. As expectativas de inflação estão a acelerar rapidamente e um aperto das condições financeiras a nível global poderia ser particularmente desafiante para a Colômbia. Assim sendo, antevê-se que a inflação permaneça elevada nos próximos 3-6 meses, podendo atingir cerca de 5% no final deste ano e 4% no final de 2022. Perante este panorama, será expectável que o Banco Central atue de forma defensiva, possivelmente subindo a taxa de referência até 2,5% no final de 2021 e até 5,00% no final de 2022.

O Banco Central da Colômbia deverá continuar a subir a taxa de juro de referência

Fonte: Bloomberg

Em suma, o movimento de aperto da política monetária iniciou-se em larga escala nas economias da América Latina como resposta ao disparo da inflação e à depreciação cambial. Um aumento das taxas de juro a nível global e/ou um movimento de fuga para a qualidade poderão exacerbar ainda mais a depreciação dos câmbios emergentes, deteriorando o seu cenário de inflação. Desta forma, os bancos centrais da América Latina deverão continuar a atuar de forma cuidadosa, tentando conter as pressões inflacionistas por forma a defender o mais possível os seus mercados financeiros.

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